Dez shows que marcaram a vida de Rodrigo Brandão
foto Beastie Boys: Serjão Carvalho
Escolher os melhores filmes da sua vida, fazer top 5 das melhores músicas, pensar nos melhores álbuns do ano. Quem nunca brincou disso? Mas a tarefa que o NOIZ deu para Rodrigo Brandão, do Mamelo Sound System, foi complicada. Convidamos o artista que já foi apresentador do Yo! da MTV, para escolher os shows de sua vida. Eis a lista!
CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI, Belo Horizonte, 1993: Fui viajar com meus amigos do Defalla, e depois dos shows, eles me levaram para uma boate mineira, dizendo que ia ter um show massa, do tal Chico Salles, chegando lá, fomos todos esmurrados por um paredão sonoro de tambores regionais, guitarras de metal, baixo funky, marra de b-boy e orgulho nacional. Era a primeira vez que Chico Science & Nação Zumbi chegavam ao sudeste, e o país nunca mais seria o mesmo, nem eu, que descobri o Brasil naquela noite a qual terminou com todo mundo junto, trocando idéia e dançando ao som do primeiro play do Arrested Development.
BEASTIE BOYS, S. Paulo, 1995: A banda que define a minha vida passou pela cidade no auge de seus poderes criativos, com a trupe completa (Mario Caldato no p.a., Eric Bobo na percussão, Money Mark no teclado), durante a turnê do Ill Communication. Foram duas noites inesquecíveis no Olympia, a Lapa pegou fogo, era rapper, punk, grunge, skatista e função pra tudo quanto é lado, a nação alternativa em peso. Foi aí tive certeza: eu vim do mesmo planeta que eles!
RUN DMC / RACIONAIS MC’S, S. Paulo, 1996: Um dos maiores nomes da história do hip-hop. Os responsáveis por alastrar a febre das batidas e rimas mundão afora, pioneiros do rap-rock, o Run DMC (com o saudoso Jam Master Jay nas picapes) estava num período baixo da carreira quando visitou o país pela segunda vez. Mas nada disso atrapalhou aquela performance de uma hora e meia no Circo Escola Picadeiro, que ainda teve direito a Racionais pré-Sobrevivendo No Inferno, pra poucas e boas cabeças.
GEORGE CLINTON, S.Paulo, 1996: o boogie lisérgico do Parliament/Funkadelic sempre foi uma das maiores referências e (ins)pirações no meu jeito de ver e ouvir música, então a data marcada pra Nave-Mãe aportar por aqui ser justamente o Dia Da Criança adquiriu conotações míticas. Não apenas pra esse que vos tecla, mas pra todo o círculo de malucos nativos q seguiram a trilha intergaláctica apontada por George Clinton & cia. E o Exército Blackleone fez jus à fama de doidão que o precede há décadas, com direito a um nêgo-véio como Gary Shider empunhando a guitarra vestido só de fraldas. Acabou já era de manhã.
NINA SIMONE, SP, 1997: Imagina a cena: parque do Ibirapuera, um domingo ensolarado no inverno paulistano, show gratuito da diva Nina Simone no fim da tarde, mandando ver no vocal e no vinho, com direito a um trecho inteiro de Porgy & Bess, em interpretação mais-que-carregada de emoção é pra fazer chorar, e não sai mais da mente do sujeito. Ainda mais eu, que tomei tanto ácido ali, e já amava a Dama muito antes do Common samplear ou do Talib citar!
ART ENSEMBLE OF CHICAGO, S. Paulo, 2000: Um dos nomes mais radicais, importantes e longevos em todo o amplo panorama do que eles mesmos ajudaram a definir como Great Black Music, o Art Ensemble Of Chicago se apresentou aqui pela segunda vez como um trio, formado pelo agora-finado baixista Malachi Favors, o baterista Famoudou Don Moye, e o fundador Roscoe Mitchell, saxofonista que já dividiu o palco com Coltrane e veio ao país em Maio passado com a Exploding Star Orchestra. No início do show, a sala tava lotada, “sold-out” como gostam de dizer. Vinte minutos depois, os mestres do jazz livre já tinham passado como um trator na cabeça dos coroas que estavam ali pra tomar um uísquezinho. Com a sala vazia, eu, Lurdez, M.Takara e outros iluminados pelo poder daquela música, todos à frente a eles, sem ninguém pra servir de obstáculo.
ANTIPOP CONSORTIUM, Los Angeles, 2002: Imagine um choque entre os Last Poets e o Kraftwerk orquestrado por Afrika Bambaataa e King Tubby, é mais ou menos isso o som do legendário APC, trio de rap abstrato altamente revolucionário surgido na virada do milênio que conquistou de Thom Yorke (que fez questão de tê-los como banda de abertura em uma turnê mundial do Radiohead), ao saudoso Sabotage (que me disse: “é tipo um Wu-Tang que ninguém conhece”), passando por Dj Shadow. Esse show foi parte da turnê promocional de Arrythimia, poucas semanas antes do grupo se separar repentinamente, só retomando as atividades em 2007. Mas quem viu High Priest, Beans e M.Sayid em ação juntos sabe que aquilo é um dos segredos mais bem guardados do rap mundial.
MADVILLAIN, S. Francisco, 2004: Foi daqueles shows q a gente já sai sabendo q foi histórico… Com o Beat Junkie J-Rocc nos toca-discos, Madlib subiu sozinho e rimou tipo meia dúzia de pauladas seguidas. Eis que de repente, pula no palco, de surpresa total, um Jay Dee com pegada de gorila, pré-Lupus, alternando clássicos do Slum Village e faixas do Jaylib, junto com o Beat Konducta, que assumiu as picapes depois de um solo de bateria doidão, pra entrada do DOOM em si, mostrando porque é chamado de “Charlie Parker Hip Hop” pelo parceiro.
LEE PERRY, S.Paulo, 2007: Um dos maiores gênios da música jamaicana e mundial, Lee “Scratch” Perry é responsável por pedradas musicais de gente como Bob Marley, The Congos, Max Romeo, além do trabalho solo. Sua vinda ao país foi uma das coisas mais abençoadas dessa década. Além de cantar, o mestre maluco encantou – muitos e muito! Nem mesmo aquele ambiente inóspito com aparência de shopping center de nome Via Funchal foi capaz de atrapalhar a pagelança cósmica do Doctor On The Go. Ave Lee Scratch Perry!
