KIND OF BLUE: A obra de Miles Davis tocada pelo Psychojazz
Kind of Blue. Uma obra prima do jazz gravada na primavera de março de 1959, em apenas dois dias, e que vendeu milhões de cópias em todo o mundo. Alguém presente no 30th Street Studio da Colombia, dentro de uma grandiosa igreja, pensaria que Kind Of Blue se tornaria o melhor disco de jazz da história e que inspiraria inúmeras pessoas famosas e anônimas? Alguém do sexteto formado por Bill Evans, Wynton Kell, Paul Chambers, John Coltrane e Cannnball Adderley além do mentor Miles Davis ou algum dos técnicos de som presentes no local imaginaria que até os anos 2000 este álbum seria ouvido diariamente por Quincy Jones? A obra faz 50 anos e o livro de Ashley Kahn (Barracuda, 2007) conta como foi a criação do álbum, dos diálogos dos músicos durante a gravação, e ainda traz depoimentos de quem viveu a história de Kind of Blue. Um trabalho de pesquisa que vale a pena conferir. Como o próprio autor narra, ouve quem conheceu a obra de Miles ao vivo, em sua primeira execução pública, em 1959, em um programa de Cleveland, houve ainda quem conheceu a obra anos e anos depois, descobrindo discos herdados pelos pais, pelos avós, ou quem conheceu a obra apresenta por algum amigo, e deste último exemplo, vem o meu caso.
Com meus 27 anos, apenas no início de 2009 fui conhecer a obra prima do jazz, e me encantei. Convidada por Junior Boca, guitarrita mentor do Psychojazz, a ir ao show no Studio SP do quarteto do qual o artista é basicamente acompanhado por Fabio Sá (Baixo Acústico), Guilherme Guizado (Trompete), Humberto Zigler (Bateria). Basicamente, porque o próprio Junior Boca explica: “A Psychojazz tem sempre formações variadas, de acordo com o projeto. Acho legal manter isso para dar uma cara nova cada vez que a gente reúne essa diversidade para uma determinada proposta de som. Todos os shows da temporada no Studio SP tiveram formações distintas. Fizemos ainda temporada no Clube Berlin seguindo esse mesmo esquema”.
Durante o dia da primeira apresentação que presenciei, resolvi ficar por dentro da obra e baixei em um site na internet (imaginem se Miles Davis pensaria nesta revolução um dia, sua obra sendo baixada pela rede mundial!). Com certeza, a mesma paixão que senti também foi o que motivaram muitos dos entrevistados por Kahn dizer que o álbum foi trilha sonora de amores e paixões, por sua “atmosfera de transe”.
Confira a entrevista com o guitarrista Junior Boca.
Depoimento do repórter e trompetista Juca Guimarães – Me lembro perfeitamente a primeira vez que ouvi o álbum Kind of Blue e a impressão que ele me causou. Eu já conhecia boa parte da obra do mestre Miles, mas comprava os cd fora da ordem cronológica. Esse disco, gravado em 1959, em Nova York, por uma das formações mais brilhantes do jazz, eu só comprei em 1998.
Na época, eu não era nem jornalista e nem trompetista, no ano seguinte entrei no meu primeiro emprego em jornal e só muitos anos depois comprei um trompete.
Era um dia normal que, depois da audição do cd, se tornou muito especial. Eu estava acostumado a ouvir um Miles Davis rápido, irreverente e preciso como nos álbuns da fase bebop; ou um som mais encorpado com muito ritmo das fases fusion e elétrica de Miles.
Kind of Blue não se parecia com nada do que eu já tinha ouvido. Cinco músicas executadas com precisão e suavidade surpreendentes. O álbum é conceitual e econômico. Cada nota, cada intervenção dos músicos tem uma importância fundamental para a obra. Não sobra e não falta nada. É um álbum inspira e preenche emoções. Sem erudição ou exageros, Kind of Blue oferece uma sensível viagem ao jazz. Por isso, é o disco mais vendido do gênero em todos os tempos. Onze anos após ouvi-lo pela primeira vez, ainda é fresca e surpreendente para mim a genialidade de Miles nesse álbum.
*Atualizada no dia 17, às 22h