PSYCHOJAZZ: a magia do Kind of Blue
Confira abaixo entrevista sobre o Psychojazz, banda criada pelo guitarrista Junior Boca e que toca o álbum Kind of Blue. Esta é a homenagem do NOIZ aos 50 anos da obra de Miles Davis.
NOIZ ::: Como surgiu a idéia de tocar o Kind Of Blue?
Esse disco é um dos mais importantes da historia do jazz e da musica de uma maneira geral, pois inaugurou uma nova forma de se tocar, praticamente um novo estilo de jazz. Achei legal tocar o disco no ano em que ele completa 50 anos da data de lançamento (17 de agosto de 1959). O fato de ser um disco importantíssimo e que a maioria dos músicos conhece me despertou interesse em fazer esses shows e chamar os mais chegados para participar. Tem sido ótimo, todos que tocam com a Psychojazz esse projeto se envolvem muito porque, além de curtir o álbum, sabem que estão tocando uma obra-prima que permanece atual ate os dias de hoje, 50 anos depois de ter sido feita.
NOIZ ::: Quando você conheceu esta obra de Miles Davis? Você se lembra da primeira vez que ouviu o Kind of Blue?
Escutei tardiamente, pois tive contato com o jazz já tocando, aprendendo e absorvendo a linguagem. Sempre escutei Rock de uma maneira geral, Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin, o jazz surgiu pra mim como algo inusitado e incrível, despertou meu real interesse por tocar musica instrumental e experimentar os caminhos da improvisação. Acho que em meados dos anos 90 escutei mesmo o disco, faixa por faixa, é bem diferente de escutar uma musica ou outra separadamente (o que já havia acontecido), isso gera outra visão das coisas. Escutar o disco completo, ouvindo de verdade te dá outra percepção sobre o assunto. O som, os caras tocando, a atmosfera, são detalhes que acho mais perceptíveis quando se escuta a obra toda de vez. Pelo que me lembro, acredito que escutei pela primeira vez na casa de um saxofonista amigo meu de Fortaleza, o Ellis Mario. Esse cara foi o primeiro a me chamar pra tocar essas paradas e a gente se reunia na casa dele pra ouvir as coisas. O Kind of Blue entrou no meio desse processo, assim como coisas do Coltrane, Charlie Parker, Mingus e diversos outros. Foi uma época muito enriquecedora pra mim, escutar músicas incríveis e tocá-las tb.
NOIZ ::: Você conhece a história da gravação do Kind Of Blue? Se sim, como conheceu?
Conheço algumas coisas, li a autobiografia do Miles e ali tem várias informações não só sobre ele, mas sobre a história do Jazz a partir da fase Bebop, que foi quando ele chegou a New York. O que mais me chamou atenção foi que eles gravaram tudo em dois dias. Meu amigo Daniel Ganjaman ganhou a edição especial lançada pela Columbia/Legacy Records em homenagem aos 50 anos do álbum e nela tem um livro falando muita coisa, com fotos incríveis. Tem ate um cd com outras musicas, standards de Jazz, gravados no meio da produção do Kind e que não fazem parte do disco. Nunca imaginei que os caras tivessem gravado outras músicas no meio desse processo, já achei pouco esse tempo pra fazer o lance. Tem várias outras, que ainda não ouvi, mas que pretendo, tenho que combinar de ir à casa do Ganja pra escutar. Por que pedir emprestado, não rola, né?!
NOIZ ::: Como foi a criação das releituras da obra de Miles? Todo show é uma espécie de improvisação?
Como o disco é muito conhecido por quem curte jazz, rola certa facilidade sobre estar ambientado com as músicas, que são 6 ao todo, sendo que uma delas (Flamenco Sketches) tem 2 versões. Então, na real, são 5 musicas. Só que as facilidades param por aí, porque não é uma coisa simples abordar um disco tão conceitual e tocar do seu jeito. Desde a primeira ideia sobre esse projeto nunca imaginei a gente tentando copiar ou reproduzir fielmente as coisas, não via sentido nisso e também não era meu objetivo. Sempre pensei em ter essa liberdade de fazer o que a gente imaginasse, porque na Psychojazz alternam-se diversas formações dependendo do show, então tudo fica muito na mão de quem está naquele show e naquela hora. Esse simples fator leva tudo para um caminho meio que sem destino certo, pois, mudou a banda mudou o show. Cada um tem sua própria linguagem musical, toca de um jeito diferente do outro, ouve o disco de uma forma distinta. Eu acho incrível poder dividir o palco com diversos músicos jazzistas ou não. Sempre é diferente, inusitado, a gente passa a se conhecer melhor musicalmente depois de ter a experiência de tocar um lance que todos nos curtimos e de maneira livre. A improvisação existe, porém dentro de vários outros fatores que não são improvisados, tem que tocar a música, saber os temas, entender pra onde vai, saber ouvir o que o outro está tocando, é assim com qualquer estilo musical e com o Jazz não é diferente. Falando mais especificamente do Kind of Blue, se não rolar o equilíbrio entre o que é improviso e obrigação não é possível tocar junto.

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