Dança com os manos, dança com a vida
Aos 30 anos, o jornalista, rapper e escritor Gilponês pode se considerar uma testemunha viva da história do rap nacional, que acompanha desde os nove anos de idade. Atualmente, o premiado escritor se dedica a resgatar uma parte muito importante dessa história: A vida e obra de Nelson Triunfo, que completou 55 anos de idade no dia 28 de outubro. O dançarino Triunfo é um dos precursores do hip hop no país e, nas palavras do escritor, um mártir do movimento.
Dia 31, haverá uma festa na Casa do Hip Hop de Diadema para comemorar o aniversário do Nelsão. Não vão faltar break, shows, grafite e muitas atrações. O lançamento do livro está previsto para 2010.
Acompanhe a entrevista exclusiva do NOIZ com o escritor Gilponês, que morou alguns anos no Japão e lá montou um grupo de rap Saga Shuriken, com amigos brasileiros. O grupo disponibilizou no myspace as músicas ‘Responsa’ e ‘Dê um stop’
NOIZ ::: Como surgiu a ideia de fazer esse livro? Você já conhecia o Nelson?
Conheci o Nelsão rapidamente em 1997 ou 1998, em um evento em São Paulo, mas foi em Bauru, três anos depois, que mantivemos mais contato. Ele passou uns dias por lá, cidade em que eu morava, e nesta ocasião pude conversar mais com essa lenda viva do hip-hop brasileiro. Alguém até filmou uma sessão de freestyle entre eu e ele, mas eu nunca vi essa gravação.
Passei quase quatro anos no Japão e, nesse período, o Nelsão mantinha contato pela internet. Quando voltei ao Brasil, no final de março, sonhei que tinha escrito a biografia dele. Depois que acordei, pensei: e por que não? Telefonei pro Nelsão, propus realizar este trabalho e ele entendeu meu propósito. Selamos essa parceria da maneira mais brasileira possível, numa feijoada dominical, e só tenho a dizer que para mim é uma grande honra poder registrar uma trajetória de vida tão fascinante quanto de Nelson Triunfo. A responsabilidade é enorme! Mas eu estou pronto pra missão e quem me conhece sabe o quanto estou me dedicando a ela!
NOIZ ::: Sendo música de rap você tem outro ponto de vista, diferente do de um escritor, como isso deve se refletir no livro?
Digamos que sou um bom ouvinte de rap, desde 1988. Mas sempre acompanhei o hip-hop como um todo, mesmo tendo identificação maior com o rap. Não levo jeito para desenhar nem dançar, mas admiro e valorizo muito o grafite e o break. Nelsão é assim, nunca dá mais atenção a um ou outro elemento da cultura hip-hop, procura equilibrar a coisa. Acho que, como temos um modo de pensar parecido, esses valores vão transparecer bem nas páginas do livro. O mais interessante é que não vai ser um livro de teorias. Os conceitos que o Nelsão transmite serão contados na prática, através de relatos de passagens incríveis da vida dele.
NOIZ ::: Você acha que o Nelson Triunfo recebe a devida importância no movimento por conta das suas contribuições?
Não. Nelsão é unanimidade no hip-hop nacional, é presença constante em programas de televisão e reportagens na imprensa, mas acho que ele merece muito mais do que isso. Aliás, todo reconhecimento que o Nelsão receber ainda será pouco perto de sua importância. Sem exagero: para mim, Nelsão é um mártir cultural.
Ele tem ótimo coração e sempre tocou o hip-hop por amor à cultura. Em muitas ocasiões, pensou demais nos outros e acabou se esquecendo de si mesmo. Ele próprio admite isso. Mas, apesar da vida simples que leva, Nelsão é muito feliz, tem uma família de ouro e mantém-se em plena atividade, com saúde para continuar trabalhando em pró do hip-hop de raiz por muito tempo.
NOIZ ::: Por que os artistas de break não tiveram o mesmo destaque dos Mcs e DJs? Faltam eventos ou promoção da dança dentro da cultura hip hop?
O break só existe no chão, na rua. Não dá para empacotar o break e vender numa prateleira, como se faz com os discos de rap. Isso faz com que o break nunca perca sua essência como cultura “de rua”. Faz, também, com que às vezes ele seja deixado de lado por algumas pessoas que só miram holofotes, flashes e lentes do mainstream.
Eu sou contra alguém dizer que “ouve hip-hop”, sou contra as prateleiras de “hip-hop” nas lojas de CDs. Hip-Hop não é gênero musical, a música é rap. Hip-hop é toda a cultura que também inclui o break e o grafite. Mas não dá para combater os rótulos criados pela mídia leiga. Também não dá para negar que o rap ganha mais destaque do que o break.
Mas acredito que, independentemente da falta de divulgação, a dança de rua nunca vai morrer no Brasil – e muito graças a Nelson Triunfo. Eventos não faltam, incentivadores também não. Quem conhece o trabalho do Rooney Yo-Yo (Pixa-In) sabe disso. Também há gangues de break maravilhosas no Brasil, que frequentemente se apresentam no exterior e encantam gringos. O próprio Nelsão já levou a Funk Cia para a Alemanha duas vezes.
Vale lembrar que Thaide, outro grande incentivador do break, conheceu o hip-hop através da dança, e só depois começou a fazer rap. GOG, X e até Chico Science também foram b.boys. E foi o break praticado no metrô São Bento que impulsionou a gravação do primeiro disco oficial de rap brasileiro, a coletânea “Hip-Hop Cultura de Rua” (Eldorado, 1987).
NOIZ ::: Como está a produção do livro? Você deverá fazer quantas entrevistas? Quais os pontos você pesquisou e que te chamaram mais atenção?
Digamos que o livro está ainda na fase inicial e a ideia é terminá-lo até o final de 2010, mas vou fazer as coisas sem pressa. Completei uns 20% da pesquisa e escrevi uns 10% do texto final, e ultimamente ando debruçado sobre vários rascunhos que ainda preciso “costurar” com calma nos próximos meses. Não planejei um número específico de entrevistas, vou gravar enquanto achar necessário. Além de colher várias horas de depoimentos, tenho acompanhado o Nelsão em alguns eventos e pesquisado também com pessoas que participaram/participam de sua vida. Pretendo ouvir pessoas como Thaide, Zulu King Nino Brown e Tony Tornado, além de muitos b.boys e pessoas envolvidas com a organização dos bailes blacks dos anos de 1970 e 1980.
Ainda pretendo ir a Triunfo (PE), para conhecer o ambiente em que Nelsão nasceu e cresceu. Também planejo ir a Paulo Afonso (BA), onde ele conheceu o soul e o funk e montou sua primeira equipe de dança, chamada Os Invertebrados.
A facilidade que tenho é o fato de Nelsão ser muito comunicativo e ter ótima memória. Isso faz com que, a cada entrevista, eu volte para casa com mais perguntas do que respostas… E ele tem muitas histórias boas para contar, muitas passagens de vida surpreendentes. É um verdadeiro griot (contadores de estórias das antigas tribos africanas, grandes referências da chamada “oralitura”) nordestino! Quero escrever um texto literário, mas com riqueza de detalhes sobre cada fase da vida do Nelsão, porque todas são muito interessantes. A trajetória de vida de Nelsão é um exemplo que merece ser perpetuado e, quando o livro sair, as pessoas vão entender por que digo isso.
NOIZ ::: Você pretende escrever outros livros sobre o hip hop? Qual o assunto?
Pretendo reescrever por inteiro um trabalho que conclui em 2001, sobre a história do rap no Brasil, de modo a corrigir alguns pontos e atualizá-lo também. O livro se chama “Resistência, Arte e Política – registro histórico do rap no Brasil”, e esta versão antiga está disponível para download na biblioteca do portal Bocada Forte.
Também tenho o objetivo de escrever outras biografias de personalidades interessantes do hip-hop nacional. Já tenho alguns nomes em mente, mas por enquanto estou 100% concentrado na biografia do Nelsão e, só depois de concluir esta nobre missão, vou pensar em outros projetos.
NOIZ ::: Como você avalia a atual geração do rap? Quais são os artistas que chamam a sua atenção? Nacional e gringo.
Como em todo gênero musical, o rap tem muita coisa boa e muita coisa ruim. Nem tudo que é bom, ganha o reconhecimento, enquanto tem muita coisa ruim bombando nas rádios e pistas de dança. Mas a parte boa me deixa bastante otimista com relação ao futuro do rap, porque a cada dia pipocam talentos soberbos por aí, e muita gente boa que está na estrada faz tempo ainda tem gás e talento pra se manter na cena por longo tempo.
Sou mais apreciador de rap nacional, e destaco GOG, Racionais, MV Bill, DMN, LF, Sombra, Kamau, Emicida, RZO, Black Alien, Mzuri Sana, Nitro Di e DBS & a Quadrilha como os que mais tenho escutado. Sobre rap gringo, tenho acompanhado pouquíssima coisa e gosto dos antigos, como NWA (e dissidentes), Run-DMC, De La Soul, A Tribe Called Quest, Public Enemy e KRS-One. Das safras mais recentes: Fugees, The Pharcyde, Common, Nas…
NOIZ ::: Você acha que a literatura está se popularizando no hip hop? O que falta para promover a leitura dentro do movimento?
O Chuck D (Public Enemy) tem uma frase muito boa, mais ou menos assim: “Um rapper fala sobre o que sabe. Portanto, se o conhecimento for limitado, obviamente o rap também será limitado”.
É interessante verificarmos que o hip-hop tem feito muita gente pegar em livros, seja para rechear as letras de rap, seja porque através do hip-hop essas pessoas despertaram para a importância de se manterem bem informadas. Ainda estamos longe de ter um número representativo de leitores, mas é bom ver que o fenômeno da leitura está crescendo na periferia, na contramão dos que acreditam que “o livro vai morrer” (ideia da qual eu discordo).
Hoje o hip-hop registra suas próprias memórias não só em grafites e letras de rap, mas também em livros. Hoje temos o movimento da chamada “literatura marginal”, temos o Sarau da Cooperifa do revolucionário mestre Sérgio Vaz, além de livros de personalidades importantes do rap. Thaide e DJ Raffa já lançaram biografias, o DJ TR lançou um livro sobre a história do hip-hop no Brasil, o GOG também está preparando um livro… Acho que estamos num bom caminho.
Acredito que, antes, o povão não se identificava com os livros que eram empurrados a eles. Agora, as pessoas se identificam com os livros e os autores porque sabem que aquilo ali é a sua história e que os escritores são pessoas iguais a elas, que falam a sua língua e vivem os mesmos problemas que elas. Ferréz, Sacolinha, Alessandro Buzzo, Sérgio Vaz, Paulo Lins e tantos outros nomes estão ajudando a impulsionar esta coisa maravilhosa chamada leitura, eles estão fazendo muito moleque trocar o cano por um livro. Para estes caras, eu tiro o chapéu e faço reverência.
NOIZ ::: Quais os seus escritores preferidos?
Não sei se tenho escritores preferidos, talvez tenha livros preferidos. Muita literatura brasileira, principalmente Machado de Assis, gênio das palavras. Dele, destaco “Dom Casmurro”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “O Alienista”, além de seus contos maravilhosos, como “A Igreja do Diabo” e “A Cartomante”.
Também gosto muito de literatura russa, principalmente de Fiódor Dostoiévski – já li três vezes “Crime e Castigo”, que em minha opinião é o melhor livro do mundo. Eu não posso esquecer de mencionar Franz Kafka (“O Processo”, “O Castelo”, “A Metamorfose”), George Orwell (”1984″, “A Revolução dos Bichos”), Alex Haley “Malcolm X” e “Negras Raízes”) e todos os autores da literatura marginal brasileira, além dos livros de MV Bill e Celso Athayde.
NOIZ ::: Quais as biografias mais legais que você leu? Porquê?
As mais representativas dentro do hip-hop foram as de Malcolm X e Kunta Kinté (”Negras Raízes”), ambas do Alex Haley, que considero leituras indispensáveis. Também fiquei impressionado com “Fight the Power: Rap, Race and Reality”, escrito pelo Chuck D, ‘meio biográfico’, mas que não possui versão em português.
De autores brasileiros, destaco os livros de Fernando Morais e Ruy Castro. Uma biografia interessantíssima é “O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro, sobre a vida de Nelson Rodrigues. “Chatô, o Rei do Brasil”, do Fernando Morais, ajuda a entendermos o funcionamento prostituto da imprensa brasileira.
Conheça um pouco mais sobre o autor
Gilberto Yoshinaga (Gilponês), 30 anos, nascido em Mogi das Cruzes (SP).
Entre 1999 e 2001, produziu e apresentou o “Som das Ruas”, o primeiro programa a tocar rap nacional na Rádio Unesp de Bauru (SP).
Em 2001, escreveu o livro-reportagem (não-publicado) “Resistência, Arte e Política – registro histórico do rap no Brasil”.
Em dois anos consecutivos (1998 e 1999), ganhou prêmios literários na Academia Brasileira de Letras (ABL). Os dois textos premiados faziam alguma menção ao hip-hop.

O Gilponês é uma memória viva da cultura Hip-Hop e da música Rap no Brasil. Um verdadeiro “guerreiro” pelas causas e valores da cultura de rua. Muito além disso, ele é um ser humano, uma pessoa, fora de série! Extremamente ponderado, inteligente e positivo. Sinto-me lisonjeado por tê-lo como companheiro, no portal Central Hip-Hop/Bocada Forte. Muito sucesso pra você, irmão! Parabéns ao site Noiz pela entrevista.
Parabéns site Noiz pela entrevista muito boa. Estou no aguardo do livro e o engraçado é que também estou esperando o lançamento aqui no Brasil do livro “A Lua da Yakuza” (Algo assim). =D
Abraços!