Nos rolês mais íntimos de Lurdez da Luz
NOIZ tivemos acesso em primeiríssima mão ao disco solo de Lurdez da Luz, conhecida nas quebradas do mundão por pilotar um dos microfones do grupo Mamelo Sound System. Entrei em contato com Lurdez daqui da Alemanha e numa conversa intercontinental a moça contou tin-tin por tin-tin os pormenores da feitura deste primeiro disco solo. Na conversa, Lurdez falou do início do seu interesse pelo universo hip-hop, explicou a origem do desejo de fazer um disco solo, o que diferencia este disco do seu trabalho com o Mamelo e ainda citou uma passagem com o saudoso DJ Primo.
Nas palavras de Lurdez da Luz: “A história da minha vida não dá um filme, mas também não é assim tão ruim”. Confira o bate-papo e uma resenha sobre o disco.
Começando do começo. Em que momento e circunstâncias a música entrou na sua vida?
Lurdes da Luz: Comecei a me meter a fazer som acho que em 1994. Mas tem toda aquela memória infantil né, minha mãe me ninando com canções do “Acabou Chorare” dos Novos Baianos e João Gilberto. Mas quando eu decidi fazer som foi bem menos doce, peguei uma guitarra numa permuta, trabalhei de recepcionista num estúdio no Bixiga (bairro de São Paulo) e meu chefe me deu uma Epiphone Les Paul e eu fui tocar rock. Não era um punk, não era emotional hard core, nem era mod, nem hard rock… sei lá definir o que era, como não sei definir até hoje. Mas lembro que “Fun House” dos Stooges e Dead Kennedy´s eu ouvia todo dia roubados do meu padrasto.
E como foi a transição desse universo do rock pro hip-hop?
LdL: Foi gradual mesmo. Nos (anos) 90 tinha muita festa misturada, de skate e tal, que tocava Racionais, Beastie Boys e Cramps, sei lá. Daí eu já ouvia um monte de rap quando saía: Digable Planets, Pharcyde… os raps que “geral” curtia, não só quem era desses rolês específicos. O bate cabeça né? Como a trilha do (filme) Judgement Night.
Mas me identificar a ponto de virar a casaca mesmo foi em 1998, com Black Star e na sequência os malucos do Antipop, Mike Ladd e mais um monte. Comecei pelo lance do spoken word mas daí fui me apaixonando pela linguagem e as batidas do rap e junto com o Rodrigo Brandão levamos a parada pro nosso mundo as vivências e influências e o resultado é o Mamelo Sound System, que completa 10 anos em 2010.
Pois é, e depois de tanta história com o Mamelo de onde foi que veio o desejo de fazer um disco solo?
LdL: Da demanda de sons na cabeça. Tinham umas letras sem base, daí queria saber mais de como fazer música, de como dar vida as idéias. Uma bateria mais assim, um timbre mais assado. Já começar pela minha concepção e não encaixar as rimas num beat já pronto. Daí achei as pessoas certas pra compor junto…
E isso é até engraçado. Porque é um disco solo, mas parece que é um trabalho mega coletivo pois têm um monte de gente envolvida…
LdL: Isso foi o fluxo do cotidiano que foi ditando de um jeito bem espontâneo.
Mas tem as figuras que participaram em várias faixas, como o Daniel Bózio e o Marcelo Cabral…
LdL: Sim, sim. Eu fui bater na porta do estúdio do Daniel quando decidi fazer esse disco. Ele é um camarada de muito tempo que tem uma formação de som muito a ver com a minha e que foi cada vez mais indo pro lado da produção musical em estúdio do que pra músico de show. Daí eu peguei uns beats mais crus com os beat-makers de rap e fomos tirando os samples e colando instrumento e colando e editando… E o Cabral é grande boa surpresa do processo. Eu não conhecia ele, foi o Daniel que chamou, e ele me ajudou até em métrica e no pouco de melodia que destilei no disco.
LdL: Tudo que você faz sem ter que entrar num consenso com mais gente, guiado só pela sua intuição do que deve ficar e que deve ser apagado já é novo. Pra mim pelo menos sempre foi o formato de banda e sempre foi grupo o que eu tinha experimentado até então. Daí surgiu esses lance das músicas serem de sobre relacionamento com homens, sexo, amor, amor maternal até. Daí meu parceiro (Rodrigo Brandão) até entrou na vibe de duas (composições) né, mais que isso já ia ser viadagem (risos). Mas na real o que tem de novo é uma visão mais feminina que eu não botava no Mamelo não.
Você falou mais da parte de produção, do trabalho musical e mais técnico. E a parte lírica, o que esse disco trás de novidade, de diferente em relação aos seus sons no mamelo?
A fofoca que rolava há muito tempo era que esse seria um disco de amor…
LdL: E é! Você não achou?
Achei, é um disco de amor bem plural…
LdL: Canções de amor sempre foram as que mais fizeram sucesso no mundo, daí eu queria fazer as minhas. Mas não tem aquele lance de juras de amor eterno, de fui traída, de abordagem comum… A que fiz pro Rogê é amor de mãe pro filho, mas vai alem, é amor pelos filhos do planeta, pelo planeta. Isso é bem feminino, né?
É uma visão materna e feminina do mundo…
LdL: A abordagem clichê do amor nas ultimas décadas em nome do pop me deixa mal, daí nunca quis tocar nesses assunto no Mamelo e agora parti pra outro tipo de abordagem. Não digo que é um disco auto-biográfico sabe, pois não me baseio necessariamente em experiências reais pra escrever, mas em sentimentos reais. Lurdez da Luz nunca foi personagem, né? É apelido de rua, não fui nem eu que me batizei! Pois se você inventa pra si mesmo outra alcunha é pseudônimo, mas não é esse o caso. Vamos dizer que são rolês mais íntimos da Lurdez da Luz.
Além do Brandão o disco também tem outras parcerias, como essas figuras se aproximaram dos rolês mais íntimos da Lurdez da Luz?
LdL: Aí é mais standard o processo. Convidei quem, mais uma vez por intuição, eu gosto e tem a ver com meu som. A Stefanie foi bem quando tive que voltar pra casa da minha mãe em Santo André e ela trampava numa loja de roupa no centro de lá. Já tinha visto ela ao vivo e fiquei afim de fazer algum som com ela. O Du Peixe é admiração mesmo, gosto do canto mono-tônico, ou do rap cantando dele e do jeito que ele escreve. Ele é amigo do Daniel também, daí ele colou lá um dia e se lançou de escrever e tudo foi meio assim. O Mike Ladd me deu o beat quando veio tocar com o Mamelo aqui. Deu sem eu pedir, e americano cobra por tudo! Enfim, foi bem inna natural mystic flow.
Corrente de água doce” (a parceria com Jorge Du Peixe) é um leitura/retorno a sua história com origem baiana e essa referência nordestina em choque com a rotina em São Paulo?
LdL: Sim, é a real de muita gente né? De gente do nordeste que vem pra cá.
Eu tava voltando de SP de trem pro ABC daí fiquei de cara com as minas que as 6h da matina estavam indo pro trampo de salto, blush e pá. Trocando idéia que o forro tinha sido massa, e nem eram tão novas… Mó piquê, daí Osún aqui é um Orixá associado a vaidade feminina né, dai pirei que essas eram tipicas filhas de osún por isso rola a saudação à ela.
E também tem relação com essa postura de ser “humilde”, mas em relutar em aceitar as coisas mais simples e básicas. Querer “estar na beca com afinco” (trecho da letra), enfeitar o corpo pra expor as cores da alma…
LdL: Então essa parte do Jorge, é total o cara se arrumando ou para um terreiro ou para um folguedo. Enfim ele tá lá no rio que desemboca no mar, e ela tá aqui com muito ouro falso no braço, mas que são jóias estimadas. Coisa de caboclo fino.
LdL: Isso! Essa surgiu no projeto Colaboratório, que foi o Mamelo o Mike (Ladd) e o São Paulo Underground juntos. Daí a Rob fez essa linha na hora, ali pro show e quando rolou de pegar o beat com o Ladd escalei ele de ir no estúdio gravar a participação.
Outra faixa muito forte é a “Ziriguidum”. Parece feita sob medida pras pistas (no melhor sentido da expressão). Essa é a produzida pelo Mike Ladd, e tem o trompete do Rob Muzurek também, né?
Outra onda legal que rola no disco, e parece que tem relação com a sua aproximação com o universo do rap, é essa parada de gravar spoken words.
LdL : Sim! Quero ser livre de formato pra lançar uma idéia, e posso querer ter um formato bem definido pra num lançar idéia nenhuma. E esse som do “Ah uh” que é uma ode as mulheres casadas tem inspiração direta em uma mina chamada Wanda Robinson.
Falando em formato, pra começar a fechar a conversa. Por que lançar um EP? Por que esse formato de um disco curtinho?
LdL: Porque tem excesso de som imagem de produções artísticas no mundo, quis lançar só o que eu achei que valia a pena, num tenho compromisso com o mercado, nem faço arte pra ser aceita por determinados meios. Daí teve um som que fiz em uma instrumental do Takara que substitui pelo Meu mundo que deu mais certo. Tinha uma do DJ Primo que escrevi em uns mp3 que ele tinha posto no meu Ipod em vida… Talvez esses sons rolem mais pra frente, dai tinha que arrumar tudo separado e tal, pode ser mais pra frente, legal que ele tinha mandado um email dizendo que tiinha curtido a rima mandei um bounce com voz guia pra ele.
É legal que todo mundo que eu converso tem uma história boa pra contar em relação ao DJ Primo…
LdL: Ele era muito boa gente mesmo, todos os cabulosos de verdade são assim. Humildes porém confiantes e sem preconceito, se guiam pelo coração. Ele era o melhor DJ daqui na verdade.
E agora que o disco tá na mão, quais são as expectativas para o futuro próximo?
LdL: Não crio muito expectativas, tenho fé que vai rolar legal de fazer shows, de executar esses sons com uma banda. Porque eu amo acústico e amo eletrônico, o que pode ser meio confuso a princípio, mas também pode ser libertador. Dá pra tocar em balada só com DJ ou em teatro com banda, enfim. O que eu gosto mesmo é de executar, de montar a sequência, as virada e imaginar que elemento que sai desse som e vai tocar alguém ali na hora, em vou cantar de outro jeito uma melodia, enfim… E continuar sobrevivendo de musica, na real viver seria melhor. Talvez melhore minha renda esse disco. Já tem umas coisas marcadas mas vou divulgando no tempo certo.
RESENHA: Lurdez da Luz – homônimo
Depois de atravessar a última década portando um dos microfones do Mamelo Sound System e participar de projetos como o 3naMassa, Lurdez da Luz embarca em seu primeiro voo solo botando na rua um belo EP homônimo. O burburinho que Lurdez estaria preparando um disco de amor se confirma já na audição da primeira das nove faixas do EP, quando acompanhada por toques de tambores a moça anuncia: “esse é meu produto, é interno e bruto”. O disco que brotou do desejo de falar de amor de maneira plural, e com mais dignidade do que tem se ouvido por aí, explora com talento as nuances da condição feminina em muitas das suas várias possibilidades.
O amor de mãe bate ponto em “Meu mundo numa quadra, um misto de declaração e carta de boas intenções para o futuro do filho. Em “Andei” Lurdez toma o processo como tema e, em parceria com Stefanie (Simples e Pau-De-Dar-Em-Doido – PDD), discorre sobre a necessidade de se aventurar e as implicações das escolhas de sua maneira de viver. A sequência “Ziriguidum” – “Corrente de água doce” é o ponto alto do disco no quesito “música de baile”. A primeira, em parceria com Rodrigo Brandão (MSS), pega o ouvinte pelo suingue do trompete, contribuição de Rob Muzek (SP Underground) e explora o conceito que todo brasileiro entende com o corpo, mesmo sem saber explicar o que a palavra ziriguidum significa. A segunda é uma genial parceria com Jorge Du Peixe (Nação Zumbi) e aposta em outra direção no sentimento de brasilidade abordando a força e disposição que, apesar dos pesares, nosso povo tem para a celebração e a festividade. Já “Saudade” tem um clima mais denso e traz Brandão de volta a cena, enquanto “Eu sou o cara” serve de manual para os marmanjos entenderem com todas as letras como as mulheres gostariam que os homens se portassem em um relacionamento. Para fechar, assim como na abertura, a faixa “Fim da egotrip” dialoga com a tradição do spoken words, enriquecendo ainda mais o disco que extrapola as fronteiras do que se convém chamar hip-hop e lança Lurdez da Luz na seara da música brasileira contemporânea.
Alguns dos sons do disco e outras faixas da Lurdez da Luz podem ser conferidos aqui: http://www.myspace.com/lurdezdaluz
Contatos para shows podem ser feitos aqui: lurdezdaluz@gmail.com



