Ellen Oléria – Militante do Groove
Cantora brasiliense se apresenta em SP e ressalta o valor das mulheres na música negra nacional. “Somos senhoras do nosso som”.
Por Gisele Coutinho
Ela começou sua carreira há 10 anos. Com humildade diz que “se considera engatinhando e que tem muito chão ainda”. Autodidata, filha de sanfoneiro, ela iniciou sua trajetória tocando instrumentos musicais em casa, enquanto observava seu irmão Dadá e sua irmã LN. “A música sempre fez parte do nosso cotidiano de uma maneira muito ativa. A gente não só curtia música, a gente fazia música desde muito cedo”, diz Ellén.
Mas o caminho não é só de rosas ou boas recordações. A cantora brasiliense diz que se tornar profissional foi um processo violento, com demandas burocráticas e o mercado fonográfico. “Hoje em dia é bom entender o quanto antes que a figura da artista não pode se desatrelar da figura da empreendedora. Senão, sem chance”, diz convicta enquanto se recorda que aprendeu a produzir “na marra” e que esse processo é mais doloroso quando se é independente. Hoje, Ellén está mais segura para compor, arranjar e também para negociar.
Prestes a se apresentar em São Paulo (neste sábado, dia 28 de agosto, no espaço +Soma), Ellen Oléria conta ao NOIZ como começou sua carreira na música, sua ligação com o teatro e com o rap.
Você tem conhecimento técnico tanto com violão quanto com a voz. Você é autodidata?
Sou autodidata em todas as frentes da música onde atuo. Aprendi a tocar violão e o que eu sei de percussão foi observando os músicos à minha volta. Tive muita sorte de ter tido perto na infância muitos tipos de instrumentos. Apesar de não ter condições pra comprá-los, frequentava uma comunidade que oferecia pra nós essa oportunidade. Aprendi a cantar cantando. Por eu ser muito desorganizada nunca consegui estudar profundamente tudo o que desejei. Por isso toco muitos instrumentos de “qualquer jeito” – é o meu melhor, mas deixa a desejar (risos). Hoje já passo um tempo com meu violão, tocando e cantando. Estudo mesmo, do meu jeitinho e o melhor: só [estudo] o que gosto!
Como é a cena em Brasília para trabalhar como atriz e como cantora?
Eu optei por, nesse momento, deixar um pouco a cena do teatro mais distante, dedicar mais tempo pra música. Mas, minhas amigas e amigos do teatro tão aí na ativa. Então há produção. Assim que houver um projeto que me interesse de alguma forma também, a gente volta pro teatro, ou pro cinema, quem sabe? O lance é estar preparada pra entrar em cena. Eu tô parada há algum tempo, tô esperando que seja como andar de bicicleta: a gente nunca esquece (risos). Vou ter que estudar e me preparar.
Fale sobre a carreira de atriz. Qual foi o primeiro papel, como surgiu essa história?
Meu primeiro papel, que eu lembre, foi uma prostituta. Estava na oitava série do ensino fundamental. Eu me preparava pro vestibular e não sabia ainda pra que área ia fazer a prova. Assisti a um filme da Ana Carolina chamado “Das Tripas Coração”. Curti muito o lance do simbolismo e decidi que queria muito trabalhar com algo assim. Mas não tinha cinema na Universidade de Brasília. Ou eu estudaria lá, onde o ensino é público, ou não estudaria, porque minha mãe não podia pagar. Então vi que tinha teatro, achei que tinha a ver com o que eu queria. Passei! Eu nunca tinha ao menos ido ao teatro. Estava no segundo semestre (verdinha, verdinha…), o Hugo Rodas, grande diretor e encenador, me convidou pra substituir um ator de sua companhia. Eu topei e fiz uma velha catadora em Preciosas Promessas: O Caminho de Amalfi. Depois disso ele me chamou de novo pra fazer uma das três feiticeiras de Rosa Negra – Uma Saga Sertaneja. Viajamos Norte e Nordeste. Foi bom demais. Nessa viagem eu cantava em tudo que era boteco. Descobri aí que queria ser profissional da música. Obrigada, Cia. dos Sonhos! [nome da companhia de teatro brasiliense].
Você já trabalhou com o GOG e já cantou ao lado do Emicida. Seu som tem forte influência de rap, as músicas falam sobre uma rotina dura e crua e ao mesmo tempo fala sobre amor (até amor de mãe). Fale sobre o rap no seu trabalho. E essas letras sobre o cotidiano? A sua vida é assim? A inspiração vem daí?
O rap surge na minha vida pelo meu irmão Dadá. Ele curte muito, ele ouvia e eu tinha que ouvir. A casa era pequena e os cômodos compartilhados. A música de um/uma era a música de todos, forçosamente. Ouvindo rap passei a apreciar a poesia, o pancadão do grave e todas aquelas estórias cantadas que eram tão minhas também. O GOG tinha visto um show nosso, eu e a banda Pret.utu. Ele curtiu, fez o convite, eu gravei com ele a faixa “Carta à Mãe África” do disco Aviso Às Gerações. Nas gravações eu conheci o talento do RAPadura também e tenho a alegria de dizer que Emicida é meu parceirão. DJ Jamaika é também uma figura bem do comecinho. Hoje em dia ouço muito a Flora Mattos, Erykah Badu, Jill Scott, Zap Mama – que são minas que cantam suas poesias na batida do hip hop.
O rap traz uma carga pessoal, geralmente. Por exemplo, não me lembro de ter ouvido um/uma rapper mandando letra de outro num show. O rap é meio auto-identitário. Minhas letras também acabam passando sim pela experiência vivida/vista/ouvida. Mas, esse é o belo da poesia: depois de pronta, ela não tem dona.
O que vem pela frente no caminho de Ellen Oléria? Conta um pouco sobre turnês neste ano.
A gente tá com o DVD todo captado. Com as participações de GOG e do rei do soul brazuca, o Gérson King Combo. Meu irmão Dadá e minha irmã LN relembraram comigo o começo de tudo, cantando uma música comigo. A gente precisa de grana pra terminar esse projeto e lançá-lo. Estamos batalhando pra isso. Empresariado, invistam aqui! A gente trabalha bastante pra fazer melhor a cada dia. Fomos pra Sampa em março e pretendemos voltar bastante. Oxalá funcione como desejamos. Nosso desejo é trabalhar! Vou convidar a galera pra acompanhar nossas próximas paradas no site www.ellenoleria.com.
Sobre o processo de gravação do disco. Quanto tempo demorou pra compor e gravar esse álbum? Percebo um cuidado com palavras e duplos sentidos na composição. É algo bem rico e elaborado. Cada rima tem um efeito muito forte. Como você compõe?
Geralmente vem tudo junto letra, melodia, harmonia. Faço minhas levadas já pensando no que acontecerá na bateria, no baixo… Sempre foi muito assim. (o que quer dizer que não tenho uma regra, mas frequentemente acontece assim – às vezes a letra vem primeiro, às vezes só a ideia do groove, enfim). O disco Peça, que nós lançamos em junho de 2009 é um pouco inusitado. A gente já estava trabalhando no disco sem saber que seria um disco. Há músicas ali que tem 10 anos (“Senzala – A Feira da Ceilândia”). E há músicas que foram terminadas uma semana antes de entrar no estúdio pra gravar, como a faixa “Testando”. A banda já arranjava comigo as músicas antes da gente saber que elas entrariam num disco. O disco é um mosaico, um retrato desse tempo em que tive o privilégio de trabalhar com Célio Maciel (batera), Paula Zimbres (baixo) e Rodrigo Bezerra (guitarrista e produtor do disco).
Peça foi um disco suado, mesmo sendo uma alegria e uma realização muito grande fazê-lo, foi muito doloroso pra mim (eu que fiz a produção executiva toda, fiquei muito nervosa pra entrar no estúdio pela primeira vez pra gravar meu som). É pra ser nosso cartão de visita e falar um pouco sobre o que fazemos e como fazemos. Eu entendi como é difícil ser artista. Todo mundo quer ouvir o grito da galera, mas pouca gente tá disposta a encarar a dura trilha até o palco e o estrelato. Mas como toda artista, tô louca pra fazer o próximo!
Como foi a distribuição do seu disco? Fala um pouco sobre isso e o esquema com gravadoras x independência.
Nós não temos gravadora/distribuidora/selo de discos. Todas as etapas desde a produção do disco e direção do show até a venda dos discos pelo Brasil são feitas por nós. O disco vai chegar para a galera em qualquer lugar do Brasil, mas não teremos nenhum atravessador entre nós recebendo percentual da nossa produção. A galera entra no site e compra o disco. Nossa equipe envia pelo correio com toda a segurança. A galera acompanha o trajeto do disco pelo site dos correios através de um número que ela recebe em seu mail (esse é o recurso que utilizamos). Poderíamos ter uma estrutura que nos oferecesse mais tranquilidade e menos trabalho? Poderíamos se tivéssemos uma gravadora que nos representasse. Se a gente ficar esperando o Mágico de Oz, nós é que perdemos. Então, estamos encarando nós mesmas, quando digo nós mesmas estou me referindo à Suelene Couto, que tem sido uma sentinela desse projeto. Ela me produz desde o lançamento do disco, dá o sangue pra essa estrutura que conseguimos construir funcione e tem funcionado super bem. E tem sido ótimo porque não tem ninguém me dizendo o que eu tenho que falar, ou o que eu tenho que cantar, nem o que vestir. Somos senhoras do nosso som.
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28 de agosto as 21HS no espaço mais soma
Rua Fidalga n°98
15 R$ PREÇO ÚNICO
10 R$ (nome na lista)
Lista: info@maissoma.com
Estacionamento: Em frente (não conveniado)
Área para fumante
Telefone: (11) 3034-0515



