De Volta Para o Futuro com o Anti Pop Consortium
Quarteto nova-iorquino desconhece limites para reinventar o rap em sua forma e conteúdo e agradou público no SESC Pompeia
Por Arthur Dantas
O fim de semana pode ter sido da Erykah Badu – e seria pra mim também, caso não fosse tão caro –, mas o público que lotou a Choperia do SESC Pompeia no último sábado pôde conferir um pouco do trabalho do maior combo de rap futurista do planeta: o Anti Pop Consortium, de Nova Iorque. Se o Wu Tang Clan encheu de invenção e inovação a malandragem, o Anti Pop malandreou – da forma ao conteúdo – por tortuosos caminhos cerebrais – todos os aspectos formais do rap. O início do show, cada um dos membros em uma parte de uma mesa quadrada comandando seus “brinquedinhos” eletrônicos e o grafismo no telão ao fundo, em tudo remetendo à música techno do que ao rap, toma um atropelo de estouro de manada quando surgem as letras marcadas por fluxos de consciência intermináveis. Não à toa, essas verdadeiras pinturas operadas em versos originais ao cubo, são comparadas aos de outros bruxos como MF Doom, Kool Keith e o De La Soul.
Anti Pop Consortium surgiu nos anos 2000 e ajudou a estabelecer uma ponte segura entre o hip hop underground da cidade e a música eletrônica conhecida como IDM (Intelligent Dance Music). High Priest, Beans, M. Sayid (o principal animador de festa durante as apresentações) realizaram ao lado do produtor E. Blaize alguns singles a partir de 1997, mas foi através do hoje clássico Tragic Epilogue, de 2000, que, ao menos a parcela de ouvintes mais ligados à música de invenção tomaram conhecimento da turma. E não se estranhou que, naquele tempo, o colocassem ao lado de um grupo como o Company Flow: o último consolidou uma espécie de estilo de se fazer rap ligada ao selo Def Jux, e o Anti Pop, talvez por sua natureza mutante e essencialmente vanguardista, encontrou lar no lendário selo Warp Records, de Londres, mais conhecido por lançar artistas eletrônicos “difíceis” como Aphex Twin e Autechre. Dessa época, veio o ambicioso álbum Arrythmia. As batidas retas deram lugar à ambientações sofisticadas e breakbeats angulosos de uma vez por todas, sem massagem, mas com uma habilidade que os mantinha em sintonia com quem gosta de um bom punhado de rimas e inovações de produção. Diante de tantos caminhos abertos pela filosofia de trabalho do grupo e sua sonoridade, não causa estranhamento já terem dividido turnês com artistas tão distintos como DJ Shadow, Public Enemy e Radiohead.

Quem viu o MC Beans em ação na choperia do SESC Pompeia sabe do que falo. É difícil achar a pausa pra respiração dentro do flow vigoroso do figura que privilegia as sílabas tônicas e não as rimas em fim de frase. Nos momentos que Beans foi pra cima do público, acapella, esse lado poeta/alquimista/em transe do MC deixou o público literalmente sem ar e maravilhado e, ao mesmo passo, pronto pra aventura sonora que nos esperava adiante.
E essa loucura encontra limites. Um pouco, vá lá. Seu último e aclamado álbum, Fluorescent Black, consolida o estilo do grupo e bota um ou dois novos hits para as pistas mais ousadas, como a ótima faixa “Volcano”. A sofisticação do grupo pode assustar um pouco, mas com o peito aberto e a cabeça livre de preceitos, o público parece ter entrado definitivamente nessa viagem sonora digna de ficção científica, porque na soma de tudo, o grupo preocupa-se com a plateia e dá pano pra manga pra todo mundo voltar com a cabeça cheia de minhocas – seja você um beatmaker, um produtor, MC ou pura e simplesmente um fã de boa música.
Se Tim Maia estivesse vivo e ainda vidradão naquela filosofia religiosa onde os humanos estão se aprimorando para receber alienígenas mais avançados, poderia proclamar o quarteto nova-iorquino como seus profetas “racionais”. É comum na crítica musical se lembrar de uma dúzia de artistas que em seu tempo venderam pouco e que, ainda assim, alcançaram um poder mítico de influência que passou décadas. Em uma entrevista antiga, o falecido e engenhoso MC Sabotage disse ser fã do grupo. Eu não perderia tempo se fosse você e correria atrás pra sacar essa viagem sem expectativa de aterrissagem do Anti pop Consortium.
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