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21/09/2009 - por Site Nóiz

A outra face de Akin

Por Eduardo Ribas/PerRaps com fotos de Janaina Castelo Branco
tratamento de imagem: Ênio Cesar

Muita gente conhece os trabalhos que Francisco Julio Bicudo Neto faz e fez no passado. Mas o que as pessoas não sabem é o papel nos bastidores que o MC, produtor, seletor e designer Akin faz festas como a Jazz it Up! (Studio SP) ou a badalada Chaka Hotnightz (Tapas, SP).

Mais conhecido como MC, Akin, de 31 anos, já foi integrante do respeitado grupo Academia Brasileira de Rimas, que contou com nomes como Kamau, Paulo Napoli e Max B.O, além de ter um trabalho solo com rimas que destoam de seus colegas de profissão. Saiba mais sobre esse trabalho de produtor de shows e festas de AKin em 10 perguntas feitas por Eduardo Ribas, do blog PerRaps, exclusivas para o Nóiz.

Akin     por Janaina Castelo Branco

Akin por Janaina Castelo Branco

NOIZ: Como surgiu a idéia da festa Chaka Hotnightz, no Milo (clube de São Paulo)? Qual o seu papel na festa?
Akin: A idéia da Chaka Hotnightz surgiu muito antes da existência do Milo Garage, há mais ou menos uns cinco ou seis anos.
Eu e meus amigos costumávamos conversar muito sobre a existência de alguma festa aqui em São Paulo que fizesse valer a pena sair de casa e sempre chegávamos à conclusão de que não havia nenhuma. Como a gente estava cansados de esperar por alguma novidade, decidimos fazer uma festa nossa, em um lugar qualquer, pra tocar aquilo que gostávamos de ouvir em casa, fazendo da Chaka o tipo de festa que gostaríamos de ir.
Fizemos um primeiro teste dessa idéia em Campinas, no Bar do Zé, um lugar totalmente desestruturado pra qualquer tipo de festa ou coisa do tipo. Depois da primeira, começamos a fazer edições esporádicas na Torre (antiga Torre do Dr. Zero), em Pinheiros, aqui em São Paulo. Acabávamos sempre pagando pra tocar, já que o preço de entrada era simbólico e na festa só iam amigos, namoradas de amigos e uns poucos conhecidos.

Com o tempo começou a aparecer um pessoal que a gente não sabia de onde vinha. Foi então que percebemos que a coisa toda estava começando a funcionar e em menos de um ano saímos da Torre e fomos pro Milo Garage, a convite do dono, logo que o lugar abriu.

Meu papel na festa é o mesmo dos outros integrantes da Ponicz Crew. Somos cinco seletores (eu, Brandão, Gerez, Granado e Nicolas) que se revezam nos toca-discos durante as noites de sexta, tocando aquilo que gostamos. As decisões sobre o rumo da Chaka também são feitas em grupo, discutidas e definidas por todos os integrantes do coletivo.

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Akin, por Janaina Castelo Branco


NOIZ: Por quanto tempo ela ficou no Milo? A festa mudou de local por quê?
Akin: Ficamos no Milo desde a abertura, em 2004, até março deste ano. Mais de quatro anos no total, até a nossa mudança para o Tapas Club, na rua Augusta. No começo, quando as pessoas ouviam falar de uma festa que misturava afrobeat, dub, jazz, rock, rap, música brasileira e mais um monte de coisa, todo mundo achava estranho e não entendia nada, já que a Chaka Hotnightz era inclassificável dentro de algum gênero de “balada”.

O fato de não querermos cair na mesmice, na fórmula da repetição, acabou resultando na mudança de local. Não nos agradava sentir que poderíamos estar acomodados com a imensa fila que se formava do lado de fora do Milo, todas as sextas-feiras há anos.

Para nós a Chaka nunca foi nem nunca será uma balada, e sim um acontecimento que reúne pessoas diferentes em um lugar comum para ouvir música. E o mais importante nisso não é o número de pagantes que frequentam um lugar que está na moda, e sim a troca que é feita entre nós e as pessoas interessadas em algo novo e diferente.

NOIZ: Quando você sentiu a necessidade de criar a Jazz it Up!? Como foi a negociação por espaço (no caso, com o Studio SP)?
Akin: Não foi exatamente uma necessidade, mas um desejo de tornar o jazz mais acessível fora do eixo da alta classe.

As festas de jazz aqui em São Paulo têm esse velho problema de serem feitas pela elite para a elite. Isso me motivou a fazer uma festa com preço justo e de forma mais “democrática”, tanto para o público como para os músicos convidados. O foco principal era fazer da Jazz It Up! Uma conversa sonora entre o jazz e outros estilos, com shows de bandas ao vivo ao lado de convidados inusitados, na maioria das vezes mc’s.

Como esse era um formato incomum para uma festa de jazz, a negociação com o Studio SP acabou sendo mais fácil, já que a casa não possuía uma noite de jazz ainda. A mistura acabou sendo mais positiva do que eu pensei que seria. A maioria das bandas nunca havia tocado com mc, e os mc’s em sua grande maioria nunca haviam feito nada com jazz ou com banda ao vivo.
Em todas as edições deixei os músicos e convidados totalmente à vontade pra tocarem o que eles querem o que é raro de acontecer nas casas de jazz da cidade.

NOIZ: Isso atrapalhava seu processo criativo de alguma forma? Seja no seu trabalho em agências de publicidade ou como MC?
Akin: De forma alguma. Trabalhar com música é sempre gratificante, seja dentro ou fora do palco. Sempre tive a sorte de trabalhar com músicos nos quais acredito e que me inspiram. Mas produzir uma festa, escrever uma letra nova ou desenvolver um layout são coisas totalmente diferentes. O mais difícil é ter tempo de conciliar tudo numa rotina só. Meu trabalho em agência de publicidade como designer e arte finalista sempre foi o mais puxado, e, consequentemente era o que mais me tirava tempo pra fazer outras coisas. Há um ano eu decidi entrar no esquema de freelancer pra poder me dedicar a coisas que me dão mais prazer em fazer, como meu primeiro disco e os trabalhos de produção.

Akin, por Janaina Castelo Branco

Akin, por Janaina Castelo Branco

NOIZ: Você também acaba auxiliando a vinda de rappers de fora do Brasil para tocar. Como é esse processo? Sua função termina no diálogo com os artistas ou continua durante a estadia deles no país?
Akin: Na verdade meu trabalho começa com a chegada dos artistas aqui. Na maioria das vezes trabalho como cicerone, do primeiro ao último dia da estadia dos músicos. Sou responsável por fazer com que tudo funcione dentro de uma agenda de datas, horários e compromissos. Aos poucos estou me envolvendo também em uma parte maior do processo, como a negociação de valores de cachê e outros detalhes. O Rodrigo Brandão (Mamelo Sound System) e a Camila Miranda são os principais responsáveis por esses trabalhos de produção que faço. Trabalhar com eles é sempre um grande aprendizado.

NOIZ: Faça um comparativo das festas Chaka e Jazz it Up!, em termos de público e de satisfação pessoal.
Akin: As duas me dão grande satisfação pessoal. O público não é totalmente distinto de uma festa para outra. Acredito que em média 30% das pessoas freqüentam as duas festas. A Jazz It Up! ainda é algo novo que precisa passar por pequenas mudanças e ajustes até se firmar de verdade. A Chaka Hotnightz existe há mais tempo e é a festa em que eu toco como seletor. Existe uma satisfação “extra” em poder tocar ao lado de meus grandes amigos aquilo que eu ouço na minha casa.

NOIZ: Quais as maiores dificuldades de se manter uma festa em São Paulo?
Akin: Acho que uma das maiores dificuldades é achar um bom lugar, com um dono que entenda do que se trata a sua proposta. Antes de tudo você precisa realmente acreditar naquilo que você faz pra que alguém acredite também. Pra mim, a Chaka é um ótimo exemplo de que fazer aquilo em que se acredita dá certo. Sempre ouvimos falar de festas fora de São Paulo que são chamadas de “a Chaka do Rio de Janeiro, de Curitiba, de Belo Horizonte”. Em geral, a maioria das pessoas sabe que, no fundo, o que existe é uma tentativa de repetição do estilo Chaka Klan de discotecagem (hahahahaha).

NOIZ: Em que momento você decidiu dar um tempo com a Jazz it Up! para produzir os shows do Mamelo?
Akin: No momento em que eu me dei conta de que é impossível fazer duas coisas ao mesmo tempo, principalmente quando você quer fazer um bom trabalho. A pausa da Jazz It Up! coincidiu com a temporada do Mamelo Sound System no Vegas, que fui convidado a produzir. Querer abraçar o mundo é o maior erro dos produtores independentes que temos por aqui – e que são péssimos em sua grande maioria.

NOIZ: Você acha que faltam produtores de festa e de grupos em São Paulo? O que falta para mais pessoas se dedicarem a essas funções?
Akin: Acho que faltam produtores competentes. E competência não tem nada a ver com mais ou menos recursos de produção. Falta conhecimento, pesquisa e maior dedicação de verdade em entender essas funções, principalmente no meio do rap. Achar que uma boa produção se resume a um flyer bem impresso em quatro cores e mil contatos de e-mail é uma ignorância sem tamanho.

NOIZ: Qual a sua perspectiva para o rap, em curto e longo prazo?
Akin: Acho que o rap tem caminhado para uma evolução positiva nesses últimos anos. Dentro da cena nacional acredito que muita coisa ainda vai dar errado até que algo comece a dar realmente certo, infelizmente. A parte boa é que, hoje em dia, existe uma maior compreensão do rap dentro e fora do mercado comercial. O mais positivo nisso é que os independentes ganham cada vez mais força, pois o poder de marketing está deixando de ser a força motriz de vendas, dando mais espaço para que pequenos e novos artistas mostrem seus trabalhos. O fácil acesso aos meios de auto-suficência artística também tem sido muito favorável para que isso aconteça. Acredito que o mercado independente dos selos e artistas autônomos será o futuro do rap.

3 Comentários

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cfiuza
22/09/2009 às 19:21

Parabéns ao blog pela entrevista com este figuraça, cheio de personalidade, que é o Chiquinho (desculpem, mas o conheci sob esta alcunha!).

Alex
22/09/2009 às 20:03

Excelente entrevista… grande Chico !!

joao xavi
28/09/2009 às 21:11

muito bacana a entrevista. é uma oportunidade legal ver alguém falando de forma aberta e honesta de como é produzir eventos numa cidade como são paulo. sei que a proposta era mostrar o outro lado do mc, mas senti falta de ler mais sobre o projeto musical do akin. talvez uma outra entrevista mais pra frente, quem sabe?

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